sábado, 27 de fevereiro de 2010

A criança aprende, sem querer, o que o adulto ensina, com prazer


meufilme.wordpress.com/2009/12/02/o-naufrago

"Sou agora um ser brotado da queda de uma estética emocional,

sou um ser regressado do tombo de um beiral alto

que crê romanticamente no amor.

Sou um afogado desesperado batendo nos bancos de areia,

exposto ao tufão das memórias das frases.

Quase morto, quase.

Me espatifei.

Sobrevivi.

Ondas revoltas me lançaram de costas às lascas finas dos corais.

Mas felizmente e como sempre, um cardume de versos me esperava no cais!"


(Camões, em 'O náufrago')




A sala é de um nono ano, ou, antiga oitava série. Não me atrevi a comentar na sala dos professores que o plano seria ler Camões aos alunos. Não queria ser desencorajada por alguns que não acreditam mais. Choveu muito na noite anterior. Um aluno contou que a água entrou em sua casa. Muitos pareciam sonolentos. Comentei que havia lido o que haviam escrito sobre suas vidas. Foi um pedido meu. Eu preciso sempre saber para quem estou dando aula. Eu fiz questão de dizer que eu estava feliz em dar aula para pessoas tão especiais. Em seus depoimentos, eu descobri de que estilo de música eles gostam; quais são os sonhos; seus medos; suas decepções; as perdas já enfrentadas; etc. E por causa do que eu havia lido em seus relatos, pensei neste poema. Sim. Neste poema acima e escrito há tantos anos. Então, apaguei as luzes da classe. Pedi para que ficassem relaxados. Que apenas ouvissem o poema. Ah! Também pedi para se desprenderem da ideia de que todo poema é meloso e careta. Comecei então a ler, de-va-gar, linha por linha, "O Náufrago". Perguntei à classe se haviam entendido. Eles disseram que não entenderam nada. Eu disse que isso é normal. Ninguém entende tudo na primeira leitura. É preciso ler de novo e com vários olhares. Li de novo. A cada linha, eu me demorava "traduzindo" o poema. Sim. Um poema é quase sempre escrito em "outra língua", a das metáforas. Fui até a lousa. Dei alguns exemplos de metáfora. Voltei ao poema. Pedi para que eles se imaginassem na situação de um náufrago. Na verdade, enquanto se imaginavam no mar revolto, entre caldos e bancos de areia, também perguntava se haviam sofrido perdas amorosas na vida. Perguntei qual a sensação disso? Qual a sensação de acordar depois de uma dor? A poesia desperta sensações. De repente, a classe foi mudando. O sono deles foi passando. “Sou agora um ser brotado da queda”. A dor ainda persiste depois da queda? Sempre que caímos, nós nos questionamos sobre os motivos. Perguntei ainda se haviam sobrevivido e como se sentiam. A resposta foi: mais fortes! Eu dei uma pausa. Silenciaram. Eu li os dois últimos versos: “Ondas revoltas me lançaram de costas às lascas finas dos corais. Mas felizmente e como sempre, um cardume de versos me esperava no cais!". Alguns olhares marejados me fitaram: tem um cais! Talvez, olhos inundados de tanta água, de tanto mar daquele poema. A poesia às vezes faz isso: traz uma sensação tão viva que nos transporta. Os sentidos ficam aguçados quando seguimos as sugestões imagéticas do poeta. E ainda, nos revira por dentro. Acorda umas dores e acalenta outras também. Sem falar das trocas de palavras, por exemplo, “cardumes de peixes” por “cardumes de versos” nos mostrando a possibilidade de liberdade num poema. Na poesia eu posso tudo! Resolvi acender as luzes. Perguntei o que haviam achado da aula de interpretação de textos. (Bem diferente daquela típica aula em que o professor chega e diz: abram o livro na página 32, copiem até a 35 e respondam às perguntas até a página 36). Todos riram.

Isto foi ontem, mas até agora estou inundada deste poema. Até agora estou feliz pelas surpresas desta aula que não tinha cara de aula. Giuseppe Tomasi disse uma vez que a criança aprende o que o adulto faz, sem querer. Partindo destas palavras, acrescento: "A criança aprende, sem querer, o que o adulto ensina, com prazer". Sim, é sem perceber e com prazer que mostramos a nossos filhos quem somos. E não com discursos vazios e enfadonhos. Ou seja, chega de atos e movimentos mecânicos de cópia na escola. Necessitamos todos de aulas mais vivas. Necessitamos todos, mais vida! Quem decifra um poema, decifra seus labirintos por dentro, decifra o mundo e o resto das letras. Nossa escola precisa de aulas com significado. Já vi professores requisitarem três lousas para uma única sala de aula. E o aluno, terminando de copiar as letras cansadas da professora no rodapé da terceira lousa, pensa: “Quando eu vou usar isso; estou aprendendo isso pra quê?”. Ontem, enquanto estudávamos Camões e seus versos, pesquisamos os significados de palavras do poema e suas aplicações em outros contextos. Relembramos juntos o que é linguagem conotativa e denotativa. Falamos sobre a coerência e a coesão encadeando cada ideia-verso do poema. Falamos de gradação. Desmitificamos também a visão careta que a maioria das pessoas tem acerca da poesia. E de lambuja, fomos acariciados pela inefável sensação de beleza que a arte poética proporciona ao leitor.

Escrevendo aqui para vocês e pensando como a poesia é atemporal, lembrei-me agora dos versos de um poema da Elisa Lucinda:

“Ah, é isso a poesia:

um souvenir moderno,

um souvenir eterno do tempo.”


Um beijo a todos, professora Mônica Amorim

11 comentários:

Anônimo disse...

Nossa Mô lembrei das minhas aulas na facul.
Tenho certeza que eles aprenderão mais do que copiando um livro e isso é inesquecivel para eles uma aula diferente uma aula mergulhando nas poesias e descobrindo seus segredos!

beijo lindona Cindy

Cláudia disse...

Bravo! Parabéns! Se todos fossem iguais a vc, ou se dispusessem....

Semana passada, apresentei ao 4° ano "O colar de Carolina"....e pode ter certeza de que C.Meireles estará "na área", muitas e muitas vezes!

Que vc continue a inspirar e fazer seus alunos sonharem, com inúmeras possibilidades...

Grande abraço!!

LIDY disse...

Ahh,estão vendo pq eu amo a MÔ, pq sou fã dela? É por essa paixão pelo maravilhoso ato de lecionar! Pelo respeito que ela tem pela individualidade de cada aluno. E como bióloga, isso me encoraja muito. Perceber que a educação ainda tem professores comprometidos e cheios de esperança para transmitir aos jovens. Não tive aulas com a Mô, mas tive o prazer de trabalhar com ela e assim, aprender o quão mágico é lecionar.
Parabéns, amigaaaa!
Amo-te e admirot-te "demais da conta, sô".

Amanda disse...

Oiii prof!!!!
Sou dessa sala e pode ter certeza que eu adorei a aula e que eu aprendi muito!
Estou gostando mais de Português agora.
Bjoss

ju rigoni disse...

Mônica, adorei ler esse seu texto. Tomara que a professora de Português de minha neta pense como você.

Agora, sou sua seguidora porque, com certeza, não apenas seus alunos, - eu tenho muito a aprender por aqui.

Parabéns pelo blogue! Bjs e inté!

Aninhá disse...

Ah Professora amei o blog muitoo demais eu gostei mesmo ,parabens pelo trabalho e continue assim



Beijocorderosa♥

jefhcardoso disse...

Professora Mônica, pensei em uma maneira de falar e homenagear a todos que tanto vêm me incentivando com o carinho e apoio que me doam.
Escrevi uma crônica pensando em nós blogueiros. Falei sobre o que penso ser o blog para nós. Você pode concordar ou discordar; pode também acrescentar; mas não deixe de opinar. Leia e entenderá por que a sua opinião é indispensável para mim e para todos blogueiros.

Abraço do Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com

juliane disse...

Que coisa linda, você lembro da nossa sala ! Você é uma professora como eu nunca tive na vida!
Maravilhooosa demais!
contiinue assim que todos juntos vamos longe
Beijos Juliane.

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...


AFECTUOSAMENTE


ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE CHOCOLATE, EL NAZARENO- LOVE STORY,- Y- CABALLO, .

José
ramón...

Pedra do Sertão disse...

Olá, Mô,

Estou indicando seu blog para que meus alunos aprendam mais, ok? Eles estão trabalhando com a seleção de textos literários para aulas de Ensino Religioso na Grande Natal/RN. Adorei seu relato e tenho, na medida do possível, acreditado que nossos/as alunos/as merecem o que há de melhor. Não conhecia essa poesia de Camões e já a levo comigo também! Detalhe: em fevereiro, postei um mini-contro com um título que remete à poesia de Camões. Apesar de estar focada em um texto de Marília Amorim (O pesquisador e seu outro), dá para se pensar que os textos falam quase o mesmo! Confira!

abração,

Ká ou Kaká. disse...

Adorei seu blog. Estarei seguindo.

Bjos.